Tédio


A chuva caindo lá fora me faz lembrar cada momento sozinho que meus doces dias se tornaram, um tédio tão sublime, quase beirando a loucura. Lugares para ir apenas com a esperança de enganar a tristeza que sabe e sempre cerca, as novidades pararam de surgir pouco a pouco sem que pudesse ser percebido. Não há Sol, ele se esconde e deixa que as lágrimas caiam sobre a terra outrora iluminada por sua luz, de forma que a visão da terra pela janela torne-se triste e incompleta. Uma tristeza mórbida e sem vida que me abraça e me entrega ao solitário comum de um dia desértico e silencioso.
O crepúsculo encerrando o dia me faz delirar em exaltação esperando que com a chegada da noite haja também algo a se fazer, coisas que não se espera de dias normais onde a estagnação me faz querer apenas o vazio de uma solidão programada. Os amigos, todos eles estão em seus próprios mundos vivendo suas vidas onde não há espaço para minha companhia inanimada, não que não haja esforço, porém discutir a vida não me chama mais a atenção.
A noite fria causa calafrios enquanto as pessoas se movem em ritmos acelerados, as luzes da cidade agora acesas denotam o contorno de uma civilização cegada pelas leis do consumismo compulsivo, ainda assim nada a se fazer. A música entoando pelo quarto dá a sensação de que tudo acabou e nada mais importa, o corpo inerte jogado sobre a cama enquanto os ponteiros do relógio mantêm-se parados, a escuridão lá fora suaviza o sofrimento aqui dentro e disfarça o tédio. Ninguém apareceu até agora com a notícia de algo melhor, enquanto minhas energias e esperanças se esgotam, eu posso sentir a ilusória sensação que a saudade nos trás apenas para tentar corromper a alma.
Enquanto a madrugada passa e o sono não chega, resta apenas a satisfação sobre as lembranças aleatórias de dias melhores, lembranças agora tão vazias que se perdem junto ao comodismo desesperado que as tornou assim. Conto as horas esperando a chegada do sono que se afasta pela mesma sensação que me faz desejá-lo, agora o mundo se tornou agressivamente mais vazio, de forma que a solidão tenha tomado conta de tudo que está à vista. Essa tristeza me embala em momentos que duram por muitas eternidades, os momentos de intervalo se devem a repentinos espasmos do que resta de vida em mim, nada grande o suficiente que perdure mais que alguns minutos.
Ao mesmo tempo em que o Sol se levanta e deixa que sua luz entre pela janela, minhas energias se esgotam finalmente e sem a decepção que outrora me deixava extremamente descontente, eu durmo. Durmo sem a esperança de um novo dia melhor, durmo sem me apressar para a rotina que enforca meus sentidos todos os dias, durmo apenas para não deixar que a mente, em um momento de impulso, possa assassinar o corpo.

Comentários

Roberta Albano disse…
Li, acho que é por isso que eu te digo todo o tempo pra arrumar um curso. Precisamos sempre de coisas que nos preencham e não podemos esperar que as outras pessoas façam isso o tempo todo.
Acredite vc ou não, há muita coisa que vc acrescenta nas nossas vidas. As vezes eu tenho a mesma impressão que você sobre ninguém levar nada a sério. mas depois eu lembro que esse é o jeito do nosso grupo, mas não significa que as pessoas se importem menos.
Se eu te interrompo as vezes não é porque não ligo é pq em alguns momentos é impossível controlar a excitação de um pensamento.

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